História e Doutrina da Inerrância Bíblica

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História e Doutrina da Inerrância Bíblica 

“Inerrância Bíblica é a doutrina cristã e evangélica que crê que as Escrituras Sagradas (Antigo e Novo Testamento) tendo sido na sua totalidade e verbalmente dadas por Deus, não possuem erro ou falha em tudo o que ensinam, quer naquilo que afirmam a respeito dos atos de Deus na criação e dos acontecimentos da história mundial, quer na sua própria origem literária sob a direção de Deus, quer no testemunho que dão sobre a graça salvadora de Deus na vida das pessoas. A Bíblia é inerrante tanto nas informações que nos transmite como nos propósitos que expõe e nas reivindicações que apresenta. Sua inerrância é plena e absoluta. Isenta de erros doutrinários, culturais e científicos, inspira- nos ela confiança plena em seu conteúdo”.

“Inerrante significa a qualidade de estar livre de toda falsidade ou engano e, dessa forma, salvaguarda a verdade de que as Santas Escrituras são totalmente verídicas e fidedignas em todas as suas afirmações”. 

“Agora, pois, Senhor DEUS, tu és o mesmo Deus, e as tuas palavras são verdade, e tens falado a teu servo este bem” (2 Sm 7.28)

“Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” (Tt 1.2)

“Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” (Hb 6.18)

“Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa; porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?” (Nm 23.19)

“As palavras do SENHOR são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes” (Sl 12.6)

“Toda a Palavra de Deus é pura; escudo é para os que confiam nele” (Pv 30.5)

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17.17)

 

HISTÓRIA E DOUTRINA

Em toda história eclesiástica, iniciando pelos ensinos do Senhor Jesus, os escritos dos autores bíblicos e praticamente todos os pais ortodoxos da Igreja através dos séculos sempre sustentaram a doutrina da inspiração e da inerrância plena da Escritura.

Portanto a doutrina da inspiração verbal e inerrância da Bíblia Sagrada sempre foram ensinadas de maneira consistente pela Igreja ao longo dos séculos, desde os tempos apostólicos, na igreja primitiva, na Idade Medieval e na época da Reforma Protestante. A doutrina da inspiração verbal e inerrância da Bíblia Sagrada sempre caracterizou por uma unidade marcante de fé e até mesmo de terminologia, sempre inspirada no Novo Testamento.

O termo “inerrância” é um termo empregado para se aludir à veracidade das Escrituras. A Bíblia não falha; não erra; é a verdade em tudo quanto afirma (Mt 5.17,18; Jo 10.35).

Os pais da Igreja Cristã, bem como seus grandes teólogos, tais como: Clemente de Roma; Clemente de Alexandria; Gregório Nazianzo; Justino, o Mártir; Irineu; Tertuliano; Orígenes; Ambrósio; Jerônimo; Agostinho; Martinho Lutero; João Calvino, e um número incontável de outros cristãos notáveis da história da Igreja, reconhecem que a Bíblia é inspirada por Deus, e que é inteiramente a verdade.

Ireneu (130-202): “Devemos acreditar em Deus, que nos concedeu o correto entendimento, uma vez que são perfeitas as Escrituras Sagradas, porque por meio delas nos falam a Palavra de Deus e o seu Espírito”. (Contra as Heresias – 2, p.47. V.3, p.1).

Agostinho (354-430): “Aprendi a reverenciar unicamente àqueles livros a que chamo de canônicos. Creio, portanto, com muita firmeza, que nenhum dos autores desses livros cometeu qualquer tipo de erro em seus escritos […] Leio outros autores, porém não com o pensamento de que aquilo que ensinaram e escreveram é verdade só porque ali manifestam santidade e conhecimento” (Epist. 82, 1,3; V. Epist. 8 (ad Hieronymum), 3,3).

Jerônimo (340-420): “Quando somos efetivamente instruídos nas Escrituras divinas, e compreendemos que suas leis e testemunhos nos vinculam à verdade, podemos contender com os adversários. Eles serão então agrilhoados e conduzidos ao cativeiro; e esses inimigos, a quem aprisionamos, tornar-se-ão livres em Deus” (Ep. Ad Fabiolam 78, 30, citado em Lewis, Rome, p. 48).

Tomás de Aquino (1225-1274): “[…] Quando utiliza os argumentos de autoridade da Escritura canônica, ela o faz com propriedade, tendo em conta a necessidade de argumentar. Quanto à autoridade dos outros doutores da Igreja, se vale dela como argumento próprio, mas provável. É que nossa fé repousa sobre a revelação feita aos apóstolos e aos profetas que escreveram os livros-canônicos, e não sobre outras revelações, se é que existem feitas a outros doutores […]” (ST, I, 1,9, “ad sec.”).

Martinho Lutero (1483-1546):“A razão natural produz a heresia e o erro. A fé ensina a verdade pura, e a ela se atém. Aquele que se ativer à Escritura verá que não mente nem engana” (Martinho Lutero, Sammtliche Schriften, herausgegeben von dr. Joh. Georg Walch, 2. Auflage (St. Louis: Concordia, 1881-1930) – 11. p.162);

“A Escritura não pode errar” ( W2 – 14, p. 1073);

“Quem for ousado o bastante para acusar a Deus de fraude e de logro em uma única palavra e assim o fizer intencionalmente reiteradas vezes depois de ter sido advertido e isntruído uma ou duas vezes, arrisca-se a acusar de fraude e de logro a Deus também em todas as suas palavras. Portanto, é verdade, total e sem exceção, que devemos crer em tudo ou então em nada. O Espírito Santo não se divide, de tal modo que ensine uma doutrina da maneira correta e outra de maneira errada” (D. Martin Luthers Werke, Kritishe Gesamtsausgabe (Weimar: Bohlau, 1883)- WA 54, 158. V. 56, 249; 32, 59: 50, 269).

João Calvino (1509-1564): “É registro seguro e infalível” (Job, p. 744 – citação das Institutas de Calvino, na trad. De Beveridge (Edinburgh: The Calvin Translation Society, 1845), 3 vol.);

“Norma que não erra” (Institutas, I, p. 149);

“Palavra pura de Deus” (Institutas, III, p. 166; Minor prophets, II, p. 177);

“Regra infalível de sua santa verdade” (Hebreus, p. XXI);

“Isenta de toda mancha e defeito” (Minor prophets, I, p. 506).

No dia 31 de outubro de 2013 será comemorado os 496 anos da Reforma Protestante, a Reforma, trouxe uma nova leitura evangélica da Escritura, e uma ênfase muito maior sobre a autoridade exclusiva da Escritura (sola Scriptura), esse foi e é o brado da Reforma.

Com o Renascimento, movimento que pode ser caracterizado como uma tendência cultural laico (isto é, não-eclesiástico), racional e científico, que se estendeu do século XIV ao XVI, inspirando-se na cultura greco-romana e rejeitando os valores feudais a ponto de considerar o período medieval a “Idade das Trevas”, veio o grande questionamento sobre a Igreja Católica, e consequentemente da Bíblia.

Para os homens renascentistas, a época obscura seria abolida por um “renascimento” cultural posterior, justamente o momento em que estavam vivendo. Assim o renascimento não foi simplesmente o “renascer” de valores da antiguidade clássica, mas o resgate da cultura greco-romana e o abandono de elementos medievais, segundo interesses da nova classe ascendente, a burguesia, para esse movimento a Bíblia estava associada a Igreja, e portanto algo não apreciável, mas que deveria ser combatido.

Outro movimento importante na história da humanidade foi a Revolução Industrial, que é o emprego das máquinas em substituição ao trabalho manual, sendo uma mudança das mais importantes quando comparada com outras, isso porque transformou radicalmente a mentalidade e a história mundial. A Revolução Industrial iniciou-se num país protestante, anglicano, e a influência do cristianismo bíblico contribuiu para mudanças políticas menos violentas, comparando com a católica França.

Já o Iluminismo foi um movimento intelectual que teve na França do século XVIII seu mais importante ambiente de divulgação. Os filósofos iluministas teorizavam sobre: igualdade; liberdade; fraternidade; direito á vida e a propriedade.

Os iluministas desejavam substituir o absolutismo monárquico pela monarquia limitada, fundada sobre a soberania do povo. Os iluministas eram contrários ao privilégios de classe; a maioria dos pensadores propunha a igualdade jurídica; alguns entendiam que a economia não necessitava da interferência do Estado; contestavam a autoridade da religião e lançavam-se ao uso da razão.

Embora houvesse entre os iluministas divergências, o que os unia era o fato de encarar a razão como o instrumento imprescindível para se obter conhecimento. Os filósofos viam a si mesmos como “iluminados”, espécie de missionários na luta da razão (luzes) contra a tradição e o obscurantismo (trevas). A burguesia tentava tomar o poder, estabelecer suas próprias regras e metas econômicas, acabar com os privilégios de classe e com a intolerância religiosa.

Nesse sentido, as palavras de ordem dos filósofos, a luta desses pensadores contra as estruturas do Antigo Regime, representaram melhor do que qualquer movimento anterior os anseios de uma classe que não se contentava mais apenas com o poder econômico: a burguesia.

A França foi o país de maior repercussão, devido a acentuada diferença de classes, onde o regime absolutista oprimia a burguesia.

Desde a Renascença, e mais especificamente desde o Iluminismo, têm-se desenvolvido filosofias que envolvem o ceticismo diante das crenças cristãs básicas. É o caso do agnosticismo, que nega que Deus seja cognoscível; do racionalismo, que nega que Ele seja incompreensível; do idealismo, que nega que Ele seja transcendente; e do existencialismo, que nega a racionalidade de Seus relacionamentos conosco. Infelizmente esses princípios não bíblicos e antibíblicos infiltram-se nas teologias do homem, trazendo ruínas e descrédito.

 

RACIONALISMO E  A INERRÂNCIA BÍBLICA

É necessário destacarmos no processo histórico como a inerrância foi vista por muitas áreas de conhecimento, e no despertar da idade moderna o movimento filosófico denominado racionalismo tem um peso diferenciado na questão, pois moldou o pensamento teológico na Europa.

Racionalismo é a corrente central no pensamento liberal que se ocupa em procurar, estabelecer e propor caminhos para alcançar determinados fins. Tais fins são postulados em nome do interesse coletivo, base do próprio liberalismo e que se torna assim, a base também do racionalismo.

Com a penetração deste sistema filosófico nas frentes acadêmicas não foi difícil esta mentalidade penetrar nos meios teológicos e começar a ser utilizados nas universidades e seminários teológicos. Embora os objetivos da exposição não busca ser exaustiva, mas sim, descrever resumidamente como a visão sobre inerrância foi drasticamente moldada, faz necessário abordarmos primeiramente o contexto filosófico e teológica no século XVII.

Teologia liberal ou liberalismo teológico – foi um movimento teológico cuja produção se deu entre o final do século XVIII e o início do século XX. Relativizando a autoridade da Bíblia, o liberalismo teológico estabeleceu uma mescla da doutrina bíblica com a filosofia e as ciências da religião. Ainda hoje, um autor que não reconhece a autoridade final da Bíblia em termos de fé e doutrina é denominado de “teólogo liberal”, pelo protestantismo ortodoxo.

É Joham Solomo Semler que impulsionado pelos pensamentos que dominavam os meios acadêmicos na Prússia que propõe que a revelação deve ser julgada pela razão humana introduzindo a idéias que a Bíblia deve ser subordinada e a verdade encontrada na mesma deve passar pelo crivo da razão, ou seja, devemos aceitar como verdade somente aquilo que a razão humano nos diz ser verdade, como resultante da questão Semler não consegui aceitar nem a divindade de Jesus Cristo. Mas o curioso para o desenvolvimento destas teorias que culminaram com o esfacelamento da Bíblia na Europa, era que o contexto religioso na Alemanha para o período era pietismo, onde o cuidado com a religião da revelação encontrava-se além de qualquer questão, mas como pode ser citado que o primeiro passo para o extermínio da Fé de um povo é a destruição do livro que ampara tal crença, mas o que Semler fez foi somente dar os primeiros passos, é somente no século seguinte que os próximos professores universitários se incumbiram de considerar a Bíblia um livro somente de mitos começando por Strauss que lançou as primeiras teses as quais foram posteriormente às colunas mestras das estruturas teológicas liberais lançadas por Bultmann.

Enquanto toda a estrutura que colocava a Bíblia como uma serva da razão na Alemanha, a Inglaterra que era então um grande campo para os filósofos também encontrou sérios problemas para manter a inerrância bíblica intacta, devido ao levante daquilo que se configurou o deísmo que trazia a razão para o centro do debate da religião revelada.

REAÇÃO

Nos primeiros momentos da Idade Contemporânea os movimentos filosóficos representados ou pelo racionalismo ou empirismo em todas as frentes atacaram a autoridade da Bíblia passando a tratar simplesmente como uma escrava da razão, mas é neste contexto que nasce o puritanismo na Inglaterra e brilha a figura de John Wesley entre outras lideranças, os cristãos fora do mundo acadêmico, ora eram liderados por pastores ortodoxos ora liberais.

Enquanto a Alta Crítica ganhava força na Alemanha, Inglaterra, EUA e demais países de tradição protestante, milhares de cristãos buscavam a face de Deus para o avivamento e a grande reação ao racionalismo e empirismo paulatinamente fortalecia.

Em 1914 o Concílio Geral das Assembléias de Deus veio a existir, em Hot Springs, Estado do Arkansas, já havia entre os participantes um consenso doutrinário, edificado nas verdades históricas da fé, juntamente com os temas da santidade wesleyana e de Keswick. Diante de uma pergunta sobre as crenças desses pentecostais, E. N. Bell, membro do Executivo e primeiro presidente geral (posteriormente chamado superintendente geral), assim começou sua resposta: “Essas assembléias opõem-se a toda Alta Crítica radical da Bíblia, a todo o modernismo, a toda a incredulidade na igreja e a filiação a ela de pessoas não-salvas, cheias de pecado e de mundanismo. Acreditam em todas as verdades bíblicas genuínas por todas as igrejas verdadeiramente evangélicas”

 

DECLARAÇÃO DE LAUSANNE (1974)

Lausanne, na Suíça é o lugar em que ocorreu Congresso Internacional em 1974. Líderes cristãos de 150 países compareceram, e daí surgiu o Lausanne Committee for World Evangelization (Comitê de Lausanne para a Evangelização Mundial). Esse congresso também estabeleceu um pacto. Este pacto foi assinado por 2.300 evangélicos que se comprometeram a ir mais a fundo no compromisso com a evangelização mundial. Desde então o pacto tem sido uma referência para igrejas e missões. Eu não poderia deixar de postar sobre o Pacto de Lausanne e alguns trechos do Livro sobre o Pacto de Lausanne, que marcou a minha vida e o meu amor por Cristo e pelo Evangelho.

A Declaração de Lausanne, sem dúvida foi uma importante declaração de princípios dos cristãos que reagiram frente aos novos desafios de evangelismo e de testemunho da fé bíblica a um mundo em transformações. Sobre a Bíblia declara:

“A Autoridade e o Poder da Bíblia


Afirmamos a inspiração divina, a veracidade e autoridade das Escrituras tanto do Velho como do Novo Testamento, em sua totalidade, como única Palavra de Deus escrita, sem erro em tudo o que ela afirma, e a única regra infalível de fé e prática. Também afirmamos o poder da Palavra de Deus para cumprir o seu propósito de salvação. A mensagem da Bíblia destina-se a toda a humanidade, pois a revelação de Deus em Cristo e na Escritura é imutável. Através dela o Espírito Santo fala ainda hoje. Ele ilumina as mentes do povo de Deus em toda cultura, de modo a perceberem a sua verdade, de maneira sempre nova, com os próprios olhos, e assim revela a toda a igreja uma porção cada vez maior da multiforme sabedoria de Deus”.
(grifo nosso).

Segundo o entendimento de alguns, essa declaração oferece flexibilidade ao afirmar que a Bíblia é inerrante em tudo quanto afirma, neste caso pode alguém compreender haver coisas que não foram “afirmadas” na Bíblia.

 

DECLARAÇÃO DE CHICAGO (1978)

Em 1978, na cidade de Chicago (USA), no Hyatt Regency O’Hare, foi realizada a Conferência Internacional sobre Inerrância Bíblica (ICBI – International Council on Biblical Inerrancy). Foi um Congresso que reuniu estudiosos, pastores e leigos, cuja declaração resultante foi assinada por aproximadamente 300 eruditos evangélicos famosos, entre eles: James M. Boice, Norman L. Geisler, John H. Gerstner, Carl F. H. Henry, Kenneth Kantzer, Harold Lindsell, John Warwick Montgomery, Roger Nicole, James I. Packer, Robert D. Preus, Earl D. Radmacher, Francis A. Schaeffer, R. C. Sproul e John W. Wenham.

Foram apresentados catorze ensaios, e das palestras proferidas pelos participantes do evento, formularam a Declaração de Chicago, um documento de dezenove artigos, que se propõe a descrever e explicar a inerrância de tal modo que não deixa nenhuma possibilidade de existir nenhum tipo de erro em qualquer parte da Bíblia. Trata-se, portanto de um extraordinário documento para esclarecer e fortalecer a posição evangélica a respeito da doutrina da inerrância da Sagrada Escritura.

Esta foi a Declaração que deu origem ao Concílio Internacional sobre Inerrância Bíblica (ICBI – International Council on Biblical Inerrancy), um esforço comum inter-denominacional de centenas de eruditos e líderes evangélicos para defender a inerrância bíblica contra os conceitos da Escritura de tendência liberal e neo-ortodoxa.

A ICBI se despediu em 1988 com sua obra completa. O congresso no final produziu três maiores declarações: esta sobre inerrância bíblica, em 1978; uma sobre hermenêutica bíblica, em 1982, e uma sobre aplicação bíblica, em 1986.

 

DECLARAÇÃO DE CHICAGO SOBRE A INERRÂNCIA DA BÍBLIA

(Retirado do apêndice do livro: O ALICERCE DA AUTORIDADE BÍBLICA – James Montgomery Boice – Páginas 183 a 196 – Sociedade Religiosa Edições Vida Nova – Edição: 1989; Reimpressão: 1997).

A Declaração a seguir discorre sobre a doutrina da inerrância das Escrituras, esclarecendo-nos sobre o que isso vem a ser e advertindo-nos contra a sua negação. Estamos convencidos de que negá-la é ignorar o testemunho dado por Jesus Cristo e pelo Espírito Santo, e rejeitar aquela submissão às reivindicações da própria Palavra de Deus. Diante da enxurrada de desvios doutrinários que tem invadido a Igreja, é dever de cada crente manter-se firmemente apegado à Escritura, tendo como certa a sua suficiência e a sua inerrância.

PREFÁCIO

A autoridade das Escrituras é um tema chave para a igreja cristã, tanto desta quanto de qualquer outra época. Aqueles que professam fé em Jesus Cristo como Senhor e Salvador são chamados a demonstrar a realidade de seu discipulado cristão mediante obediência humilde e fiel à Palavra escrita de Deus. Afastar-se das Escrituras, tanto em questões de fé quanto em questões de conduta, é deslealdade para com nosso Mestre. Para que haja uma compreensão plena e uma confissão correta da autoridade das Sagradas Escrituras é essencial um reconhecimento da sua total veracidade e confiabilidade.

A Declaração a seguir afirma sob nova forma essa inerrância das Escrituras, esclarecendo nosso entendimento a respeito dela e advertindo contra sua negação. Estamos convencidos de que negá-la é ignorar o testemunho dado por Jesus Cristo e pelo Espírito Santo, e rejeitar aquela submissão às reivindicações da própria Palavra de Deus, submissão esta que caracteriza a verdadeira fé cristã. Entendemos que é nosso dever nesta hora fazer esta afirmação diante dos atuais desvios da verdade da inerrância entre nossos irmãos em Cristo e diante do entendimento errôneo que esta doutrina tem tido no mundo em geral.

Esta Declaração consiste de três partes: uma Declaração Resumida, Artigos de Afirmação e Negação, e uma Explanação. Preparou-se a Declaração durante uma consulta de três dias de duração, realizada em Chicago, nos Estados Unidos. Aqueles que subscreveram a Declaração Resumida e os Artigos desejam expressar suas próprias convicções quanto à inerrância das Escrituras e estimular e desafiar uns aos outros e a todos os cristãos a uma compreensão e entendimento cada vez maiores desta doutrina. Reconhecemos as limitações de um documento preparado numa conferência rápida e intensiva e não propomos que esta Declaração receba o valor de um credo. Regozijamo-nos, no entanto, com o aprofundamento de nossas próprias convicções através dos debates que tivemos juntos, e oramos para que esta Declaração que assinamos seja usada para a glória de Deus com vistas a uma nova reforma na Igreja no que tange a sua fé, vida e missão.

Apresentamos esta Declaração não num espírito de contenda, mas de humildade e amor, o que, com a graça de Deus, pretendemos manter em qualquer diálogo que, no futuro, surja daquilo que dissemos. Reconhecemos (…) que muitos que negam a inerrância das Escrituras não apresentam em suas crenças e comportamento as conseqüências dessa negação, e estamos conscientes de que nós, que confessamos essa doutrina, freqüentemente a negamos em nossa vida, por deixarmos de trazer nossos pensamentos e orações, tradições e costumes, em verdadeira sujeição à Palavra divina.

Qualquer pessoa que veja razões, à luz das Escrituras, para fazer emendas às afirmações desta Declaração sobre as próprias Escrituras (sob cuja autoridade infalível estamos, enquanto falamos), é convidada a fazê-lo. Não reivindicamos qualquer infalibilidade pessoal para o testemunho que damos, e seremos gratos por qualquer ajuda que nos possibilite fortalecer este testemunho acerca da Palavra de Deus.

A COMISSÃO DE REDAÇÃO
Uma Breve Declaração

Deus, sendo Ele Próprio a Verdade e falando somente a verdade, inspirou as Sagradas Escrituras a fim de, desse modo, revelar-Se à humanidade perdida, através de Jesus Cristo, como Criador e Senhor, Redentor e Juiz. As Escrituras Sagradas são o testemunho de Deus sobre Si mesmo.

As Escrituras Sagradas, sendo a própria Palavra de Deus, escritas por homens preparados e supervisionados por Seu Espírito, possuem autoridade divina infalível em todos os assuntos que abordam: devem ser cridas, como instrução divina, em tudo o que afirmam; obedecidas, como mandamento divino, em tudo o que determinam; aceitas, como penhor divino, em tudo que prometem.

O Espírito Santo, seu divino Autor, ao mesmo tempo no-las confirma através de Seu testemunho interior e abre nossas mentes para compreender seu significado.

Tendo sido na sua totalidade e verbalmente dadas por Deus, as Escrituras não possuem erro ou falha em tudo o que ensinam, quer naquilo que afirmam a respeito dos atos de Deus na criação e dos acontecimentos da história mundial, quer na sua própria origem literária sob a direção de Deus, quer no testemunho que dão sobre a graça salvadora de Deus na vida das pessoas.

A autoridade das Escrituras fica inevitavelmente prejudicada, caso essa inerrância divina absoluta seja de alguma forma limitada ou desconsiderada, ou caso dependa de um ponto de vista acerca da verdade que seja contrário ao próprio ponto de vista da Bíblia; e tais desvios provocam sérias perdas tanto para o indivíduo quanto para a Igreja.

Artigos de Afirmação e Negação

Artigo I.

Afirmamos que as Sagradas Escrituras devem ser recebidas como a Palavra oficial de Deus.

Negamos que a autoridade das Escrituras provenha da Igreja, da tradição ou de qualquer outra fonte humana.

Artigo II.

Afirmamos que as Sagradas Escrituras são a suprema norma escrita, pela qual Deus compele a consciência, e que a autoridade da Igreja está subordinada à das Escrituras.

Negamos que os credos, concílios ou declarações doutrinárias da Igreja tenham uma autoridade igual ou maior do que a autoridade da Bíblia.

Artigo III.

Afirmamos que a Palavra escrita é, em sua totalidade, revelação dada por Deus.

Negamos que a Bíblia seja um mero testemunho a respeito da revelação, ou que somente se torne revelação mediante encontro, ou que dependa das reações dos homens para ter validade.

Artigo IV

Afirmamos que Deus, que fez a humanidade à Sua imagem, utilizou a linguagem como um meio de revelação.

Negamos que a linguagem humana seja limitada pela condição de sermos criaturas, a tal ponto que se apresente imprópria como veículo de revelação divina. Negamos ainda mais que a corrupção, através do pecado, da cultura e linguagem humanas tenha impedido a obra divina de inspiração.

Artigo V

Afirmamos que a revelação de Deus dentro das Sagradas Escrituras foi progressiva.

Negamos que revelações posteriores, que podem completar revelações mais antigas, tenham alguma vez corrigido ou contrariado tais revelações. Negamos ainda mais que qualquer revelação normativa tenha sido dada desde o término dos escritos do Novo Testamento.

Artigo VI

Afirmamos que a totalidade das Escrituras e todas as suas partes, chegando às próprias palavras do original, foram por inspiração divina.

Negamos que se possa corretamente falar de inspiração das Escrituras, alcançando-se o todo, mas não as partes, ou algumas partes, mas não o todo.

Artigo VII

Afirmamos que a inspiração foi à obra em que Deus, por Seu Espírito, através de escritores humanos, nos deus Sua palavra. A origem das Escrituras é divina. O modo como se deu a inspiração permanece em grande parte um mistério para nós.

Negamos que se possa reduzir a inspiração à capacidade intuitiva do homem, ou a qualquer tipo de níveis superiores de consciência.

Artigo VIII

Afirmamos que Deus, em Sua obra de inspiração, empregou as diferentes personalidades e estilos literários dos escritores que Ele escolheu e preparou.

Negamos que Deus, ao fazer esses escritores usarem as próprias palavras que Ele escolheu, tenha passado por cima de suas personalidades.

Artigo IX

Afirmamos que a inspiração, embora não outorgando onisciência, garantiu uma expressão verdadeira e fidedigna em todas as questões sobre as quais os autores bíblicos foram levados a falar e a escrever.

Negamos que a finitude ou a condição caída desses escritores tenha, direta ou indiretamente, introduzido distorção ou falsidade na Palavra de Deus.

Artigo X

Afirmamos que, estritamente falando, a inspiração diz respeito somente ao texto autográfico das Escrituras, o qual, pela providência de Deus, pode-se determinar com grande exatidão a partir de manuscritos disponíveis. Afirmamos ainda mais que as cópias e traduções das Escrituras são a Palavra de Deus na medida em que fielmente representam o original.

Negamos que qualquer aspecto essencial da fé cristã seja afetado pela falta dos autógrafos. Negamos ainda mais que essa falta torne inválida ou irrelevante a afirmação da inerrância da Bíblia.

Artigo XI

Afirmamos que as Escrituras, tendo sido dadas por inspiração divina, são infalíveis, de modo que, longe de nos desorientar, são verdadeiras e confiáveis em todas as questões de que tratam.

Negamos que seja possível a Bíblia ser, ao mesmo tempo infalível e errônea em suas afirmações. Infalibilidade e inerrância podem ser distinguidas, mas não separadas.

Artigo XII

Afirmamos que, em sua totalidade, as Escrituras são inerrantes, estando isentas de toda falsidade, fraude ou engano.

Negamos que a infalibilidade e a inerrância da Bíblia estejam limitadas a assuntos espirituais, religiosos ou redentores, não alcançando informações de natureza histórica e científica. Negamos ainda mais que hipóteses científicas acerca da história da terra possam ser corretamente empregadas para desmentir o ensino das Escrituras a respeito da criação e do dilúvio.

Artigo XIII

Afirmamos a propriedade do uso de inerrância como um termo teológico referente à total veracidade das Escrituras.

Negamos que seja correto avaliar as Escrituras de acordo com padrões de verdade e erro estranhos ao uso ou propósito da Bíblia. Negamos ainda mais que a inerrância seja contestada por fenômenos bíblicos, tais como uma falta de precisão técnica contemporânea, irregularidades de gramática ou ortografia, descrições da natureza feitas com base em observação, referência a falsidades, uso de hipérbole e números arredondados, disposição tópica do material, diferentes seleções de material em relatos paralelos ou uso de citações livres.

Artigo XIV

Afirmamos a unidade e a coerência interna das Escrituras.

Negamos que alegados erros e discrepâncias que ainda não tenham sido solucionados invalidem as declarações da Bíblia quanto à verdade.

Artigo XV

Afirmamos que a doutrina da inerrância está alicerçada no ensino da Bíblia acerca da inspiração.

Negamos que o ensino de Jesus acerca das Escrituras possa ser desconhecido sob o argumento de adaptação ou de qualquer limitação natural decorrente de Sua humanidade.

Artigo XVI

Afirmamos que a doutrina da inerrância tem sido parte integrante da fé da Igreja ao longo de sua história.

Negamos que a inerrância seja uma doutrina inventada pelo protestantismo escolástico ou que seja uma posição defendida como reação contra a alta crítica negativa.

Artigo XVII

Afirmamos que o Espírito Santo dá testemunho acerca das Escrituras, assegurando aos crentes à veracidade da Palavra de Deus escrita.

Negamos que esse testemunho do Espírito Santo opere isoladamente das Escrituras ou em oposição a elas.

Artigo XVIII

Afirmamos que o texto das Escrituras deve ser interpretado mediante exegese histórico-gramatical, levando em conta suas formas e recursos literários, e que as Escrituras devem interpretar as Escrituras.

Negamos a legitimidade de qualquer abordagem do texto ou de busca de fontes por trás do texto que conduzam a um revigoramento, desistorização ou minimização de seu ensino, ou a uma rejeição de suas afirmações quanto à autoria.

Artigo XIX

Afirmamos que uma confissão da autoridade, infalibilidade e inerrância plenas das Escrituras é vital para uma correta compreensão da totalidade da fé cristã. Afirmamos ainda mais que tal confissão deve conduzir a uma conformidade cada vez maior à imagem de Cristo.

Negamos que tal confissão seja necessária para a salvação. Contudo, negamos ainda mais que se possa rejeitar a inerrância sem graves conseqüências, quer para o indivíduo quer para a Igreja.

Explanação

Nossa compreensão da doutrina da inerrância deve dar-se no contexto mais amplo dos ensinos das Escrituras sobre si mesma. Esta explanação apresenta uma descrição do esboço da doutrina, na qual se baseiam nossa breve declaração e os artigos.

Criação, Revelação e Inspiração

O Deus Triúno, que formou todas as coisas por Seus proferimentos criadores e que a tudo governa pela Palavra de Sua vontade, criou a humanidade à Sua própria imagem para uma vida de comunhão consigo mesmo, tendo por modelo a eterna comunhão da comunicação dentro da Divindade. Como portador da imagem de Deus, o homem deve ouvir a Palavra de Deus dirigida a ele e reagir com a alegria de uma obediência em adoração. Além da auto-revelação de Deus na ordem criada e na seqüência de acontecimentos dentro dessa ordem, desde Adão os seres humanos têm recebido mensagens verbais dEle, quer diretamente, conforme declarado nas Escrituras, quer indiretamente na forma de parte ou totalidade das próprias Escrituras.

Quando Adão caiu, o Criador não abandonou a humanidade ao juízo final, mas prometeu salvação e começou a revelar-Se como Redentor numa seqüência de acontecimentos históricos centralizados na família de Abraão e que culminam com a vida, morte, ressurreição, atual ministério celestial e a prometida volta de Jesus Cristo. Dentro desse arcabouço, de tempos em tempos Deus tem proferido palavras específicas de juízo e misericórdia, promessa e mandamento, a seres humanos pecaminosos, de modo a conduzi-los a um relacionamento, uma aliança, de compromisso mútuo entre as duas partes, mediante o qual Ele os abençoa com dons da graça, e eles O bendizem numa reação de adoração. Moisés, que Deus usou como mediador para transmitir Suas palavras a Seu povo à época do êxodo, está no início de uma longa linhagem de profetas em cujas bocas e escritos Deus colocou Suas palavras para serem entregues a Israel. O propósito de Deus nesta sucessão de mensagens era manter Sua aliança ao fazer com que Seu povo conhecesse Seu Nome, isto é, Sua natureza, e tantos preceitos quanto os propósitos de Sua vontade, quer para o presente, que para o futuro. Essa linhagem de porta-vozes proféticos da parte de Deus culminou em Jesus Cristo, a Palavra encarnada de Deus, sendo Ele um profeta (mais do que um profeta, mas não menos do que isso), e nos apóstolos e profetas da primeira geração de cristãos. Quando a mensagem final e culminante de Deus, Sua palavra ao mundo a respeito de Jesus Cristo, foi proferida e esclarecida por aqueles que pertenciam ao círculo apostólico, cessou a seqüência de mensagens reveladas. Daí por diante, a Igreja devia viver e conhecer a Deus através daquilo que Ele já havia dito, e dito para todas as épocas.

No Sinai, Deus escreveu os termos de Sua aliança em tábuas de pedra, como Seu testemunho duradouro e para ser permanentemente acessível, e ao longo do período de revelação profética e apostólica levantou homens para escreverem as mensagens dadas a eles e através deles, junto com os registros que celebravam Seu envolvimento com Seu povo, além de reflexões éticas sobre a vida em aliança e de formas de louvor e oração em que se pede a misericórdia da aliança. A realidade teológica da inspiração na elaboração de documentos bíblicos corresponde à das profecias faladas: embora as personalidades dos escritores humanos se manifestassem naquilo que escreveram, as palavras foram divinamente dadas. Assim, aquilo que as Escrituras dizem, Deus diz; a autoridade das Escrituras é a autoridade de Deus, pois Ele é seu derradeiro Autor, tendo entregue as Escrituras através das mentes e palavras dos homens escolhidos e preparados, os quais, livre e fielmente, “falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.21). Deve-se reconhecer as Escrituras Sagradas como a Palavra de Deus em virtude de sua origem divina.

Autoridade: Cristo e a Bíblia

Jesus Cristo, o Filho de Deus, que é a Palavra (Verbo) feita carne, nosso Profeta, Sacerdote e Rei, é o Mediador último da comunicação de Deus ao homem, como também o é de todos os dons da graça de Deus. A revelação dada por Ele foi mais do que verbal; Ele também revelou o Pai mediante Sua presença e Seus atos. Suas palavras, no entanto, foram de importância crucial, pois Ele era Deus, Ele falou da parte do Pai, e Suas palavras julgarão ao todos os homens no último dia.

Na qualidade de Messias prometido, Jesus Cristo é o tema central das Escrituras. O Antigo Testamento olhava para Ele no futuro; o Novo Testamento olha para trás, ao vê-lo em Sua primeira vinda, e para frente em Sua segunda vinda. As Escrituras canônicas são o testemunho divinamente inspirado e, portanto, normativo, a respeito de Cristo. Deste modo, não é aceitável alguma hermenêutica em que Cristo não seja o ponto central. Deve-se tratar as Escrituras Sagradas como aquilo que são em essência: o testemunho do Pai a respeito do Filho encarnado.

Parece que o cânon do Antigo Testamento já estava estabelecido à época de Jesus. Semelhantemente, o cânon do Novo Testamento está encerrado na medida em que nenhuma nova testemunha apostólica do Cristo histórico pode nascer agora. Nenhuma nova revelação (distinta da compreensão que o Espírito dá acerca da revelação existente) será dada até que Cristo volte. O cânon foi criado no princípio por inspiração divina. A parte da Igreja foi discernir o cânon que Deus havia criado, não elaborar o seu próprio cânon. Os critérios relevantes foram e são: autoria (ou Sua confirmação), conteúdo e o testemunho confirmador do Espírito Santo.

A palavra cânon, que significa regra ou padrão, é um indicador de autoridade, o que significa o direito de governar e controlar. No cristianismo a autoridade pertence a Deus em Sua revelação, o que significa, de um lado, Jesus Cristo, a Palavra viva, e, de outro, as Sagradas Escrituras, a Palavra escrita. Mas a autoridade de Cristo e das Escrituras são uma só. Como nosso Profeta, Cristo deu testemunho de que as Escrituras não podem falhar. Como nosso Sacerdote e Rei, Ele dedicou Sua vida terrena a cumprir a lei e os profetas, até ao ponto de morrer em obediência às palavras da profecia messiânica. Desta forma, assim como Ele via as Escrituras testemunhando dEle e de Sua autoridade, de igual modo, por Sua própria submissão às Escrituras, Ele testemunhou da autoridade delas. Assim como Ele se curvou diante da instrução de Seu Pai dada em Sua Bíblia (nosso Antigo Testamento), de igual maneira Ele requer que Seus discípulos assim o façam, todavia não isoladamente, mas em conjunto com o testemunho apostólico acerca dEle, testemunho que ele passou a inspirar mediante a Sua dádiva do Espírito Santo. Desta maneira, os cristãos revelam-se servos fiéis de seu Senhor, por se curvarem diante da instrução divina dada nos escritos proféticos e apostólicos que, juntos, constituem nossa Bíblia.

Ao confirmarem a autoridade um do outro, Cristo e as Escrituras fundem-se numa única fonte de autoridade. O Cristo biblicamente interpretado e a Bíblia centralizada em Cristo e que O proclama são, desse ponto de vista, uma só coisa. Assim como a partir do fato da inspiração inferimos que aquilo que as Escrituras dizem, Deus diz, assim também a partir do relacionamento revelado entre Jesus Cristo e as Escrituras podemos igualmente declarar que aquilo que as Escrituras dizem, Cristo diz.

Infalibilidade, Inerrância, Interpretação

As Escrituras Sagradas, na qualidade de Palavra inspirada de Deus que dá testemunho oficial acerca de Jesus Cristo, podem ser adequadamente chamadas de infalíveis e inerrantes. Estes termos negativos possuem especial valor, pois salvaguardam explicitamente verdades positivas.

Infalível significa a qualidade de não desorientar nem ser desorientado e, dessa forma, salvaguarda em termos categóricos a verdade de que as Santas Escrituras são uma regra e um guia certos, seguros e confiáveis em todas as questões.

Semelhantemente, inerrante significa a qualidade de estar livre de toda falsidade ou engano e, dessa forma, salvaguarda a verdade de que as Santas Escrituras são totalmente verídicas e fidedignas em todas as suas afirmações.

Afirmamos que as Escrituras canônicas sempre devem ser interpretadas com base no fato de que são infalíveis e inerrantes. No entanto, ao determinar o que o escritor ensinado por Deus está afirmando em cada passagem, temos de dedicar a mais cuidadosa atenção às afirmações e ao caráter do texto como sendo uma produção humana. Na inspiração Deus utilizou a cultura e os costumes do ambiente de seus escritores, um ambiente que Deus controla em Sua soberana providência; é interpretação errônea imaginar algo diferente.

Assim, deve-se tratar história como história, poesia como poesia, e hipérbole e metáfora como hipérbole e metáfora, generalização e aproximações como aquilo que são, e assim por diante. Também se deve observar diferenças de práticas literárias entre os períodos bíblicos e o nosso: visto que, por exemplo, naqueles dias, narrativas são cronológicas e citações imprecisas eram habituais e aceitáveis e não violavam quaisquer expectativas, não devemos considerar tais coisas como falhas, quando as encontramos nos autores bíblicos. Quando não se esperava nem se buscava algum tipo específico de precisão absoluta, não constitui erro o fato de ela existir. As Escrituras são inerrantes não no sentido de serem totalmente precisas de acordo com os padrões atuais, mas no sentido de que validam suas afirmações e atingem a medida de verdade que seus autores buscaram alcançar.

A veracidade das Escrituras não é negada pela aparição, no texto, de irregularidades gramaticais ou ortográficas, de descrições fenomenológicas da natureza, de relatos de afirmações falsas (por exemplo, as mentiras de Satanás), ou as aparentes discrepâncias entre uma passagem e outra. Não é certo jogar os chamados fenômenos das Escrituras contra o ensino da Escritura sobre si mesma. Não se devem ignorar aparentes incoerências. A solução delas, onde se possa convincentemente alcançá-las, estimulará nossa fé, e, onde no momento não houver uma solução convincente disponível, significativamente daremos honra a Deus, por confiar em Sua garantia de que Sua Palavra é verdadeira, apesar das aparências em contrário, e por manter a confiança de que um dia se verá que elas eram enganos.

Na medida em que toda a Escritura é o produto de uma só mente divina, a interpretação tem de permanecer dentro dos limites da analogia das Escrituras e abster-se de hipóteses que visam corrigir uma passagem bíblica por meio de outra, seja em nome da revelação progressiva ou do entendimento imperfeito por parte do escritor inspirado.

Embora as Sagradas Escrituras em lugar algum estejam limitadas pela cultura, no sentido de que seus ensinos carecem de validade universal, algumas vezes estão culturalmente condicionadas pelos hábitos e pelas idéias aceitas de um período em particular, de modo que a aplicação de seus princípios, hoje em dia, requer um tipo diferente de ação (por exemplo, na questão do corte de cabelo e do penteado das mulheres, cf. 1 Co 11).

Ceticismo e Crítica

Desde a Renascença, e mais especificamente desde o Iluminismo, têm-se desenvolvido filosofias que envolvem o ceticismo diante das crenças cristãs básicas. É o caso do agnosticismo, que nega que Deus seja cognoscível; do racionalismo, que nega que Ele seja incompreensível; do idealismo, que nega que Ele seja transcendente; e do existencialismo, que nega a racionalidade de Seus relacionamentos conosco. Quanto esses princípios não bíblicos e antibíblicos infiltram-se nas teologias do homem a nível das pressuposições, como freqüentemente acontecem hoje em dia, a fiel interpretação das Sagradas Escrituras torna-se impossível.

Transmissão e Tradução

Uma vez que em nenhum lugar Deus prometeu uma transmissão inerrante da Escritura, é necessário afirmar que somente o texto autográfico dos documentos originais foi inspirado e manter a necessidade da crítica textual como meio de detectar quaisquer desvios que possam ter se infiltrado no texto durante o processo de sua transmissão. O veredicto dessa ciência é, entretanto, que os textos hebraicos e grego parecem estar surpreendentemente bem preservados, de modo que tempos amplo apoio para afirmar, junto com a Confissão de Westminster, uma providência especial de Deus nessa questão e em declarar que de modo algum a autoridade das Escrituras corre perigo devido ao fato de que as cópias que possuímos não estão totalmente livres de erros.

Semelhantemente, tradução alguma é perfeita, nem pode sê-la, e todas as traduções são um passo adicional de distanciamento dos autographa. Porém, o veredicto da lingüística é que pelo menos os cristãos de língua inglesa estão muitíssimo bem servidos na atualidade com uma infinidade de traduções excelentes e não têm motivo para hesitar em concluir que a Palavra verdadeira de Deus está ao seu alcance. Aliás, em vista da freqüente repetição, nas Escrituras, dos principais assuntos de que elas tratam e também em vista do constante testemunho do Espírito Santo a respeito da Palavra e através dela, nenhuma tradução séria das Santas Escrituras chegará a de tal forma destruir seu sentido, a ponto de tornar inviável que elas façam o seu leitor “sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Tm 3.15).

Inerrância e Autoridade

Ao confiarmos que a autoridade das Escrituras envolve a verdade total da Bíblia, estamos conscientemente nos posicionando ao lado de Cristo e de Seus apóstolos, aliás, ao lado da Bíblia inteira e da principal vertente da história da igreja, desde os primeiros dias até bem recentemente. Estamos preocupados com a maneira casual, inadvertida e aparentemente impensada como uma crença de importância e alcance tão vastos foi por tantas pessoas abandonada em nossos dias.

Também estamos cônscios de que uma grande e grave confusão é resultado de parar de afirmar a total veracidade da Bíblia, cuja autoridade as pessoas professam conhecer. O resultado de dar esse passo é que a Bíblia que Deus entregou perde sua autoridade e, no lugar disso, o que tem autoridade é uma Bíblia com o conteúdo reduzido de acordo com as exigências do raciocínio crítico das pessoas, sendo que, a partir do momento em que a pessoa deu início a essa redução, esse conteúdo pode em princípio ser reduzido mais e mais. Isto significa que, no fundo, a razão independente possui atualmente a autoridade, em oposição ao ensino das Escrituras. Se isso não é visto e se, por enquanto, ainda são sustentadas as doutrinas evangélicas fundamentais, as pessoas que negam a total veracidade das Escrituras podem reivindicar uma identidade com os evangélicos, ao mesmo tempo em que, metodologicamente, se afastaram da posição evangélica acerca do conhecimento para um subjetivismo instável, e não acharão difícil ir ainda mais longe.

Afirmamos que aquilo que as Escrituras dizem, Deus diz. Que Ele seja glorificado. Amém e amém.

BIBLIOGRAFIA 
GEISLER NORMAN (organizador) – A INERRÂNCIA DA BÍBLIA – Uma Sólida defesa da infabilidade das Escrituras – Editora Vida – 1980.

O ALICERCE DA AUTORIDADE BÍBLICA – James Montgomery Boyce – Páginas 183 a 196 – Editado por: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova – Edição: 1989; Reimpressão: 1997.

MATERIAL PREPERADO PELO PROFESSOR ALBERTO ALVES DA FONSECA – graduado em Teologia na Escola Teológica “Pr. Cícero Canuto de Lima”, na ETEQS e na FAETEL, graduado em História na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – FFLCH/USP, graduado em Direito na Faculdade Padre Anchieta. Foi vereador de Jundiaí (1996-2000), Vice Presidente e Diretor Teológico do ICP – Instituto Cristão de Pesquisas. Atualmente é Ministro da Igreja Evangélica Assembléia de Deus de Campinas-SP, professor do Curso de Capacitação para os Professores da Escola Dominical da Assembléia de Deus de Campinas, autor do livro: O Povo de Israel – Uma Perspectiva Bíblica e Histórica e é vereador de Campinas/SP.

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