Acaso rejeitou Deus o seu povo?

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ACASO REJEITOU DEUS O SEU POVO?

 

Resposta do judeu apóstolo Paulo: “…De modo nenhum: porque eu também sou israelita, da descendência de Abraão, do tribo de benjamim. Deus não rejeitou ao seu povo que antes conheceu…” (Rm 11.1-2).

A declaração de Paulo no capítulo 11 de Romanos, nos leva a seguinte consideração, ele se referia a nação de Israel, ele fala de sua etnia, sou israelita, fala de seu antepassado, descendente de Abraão, fala de sua família tribal, benjamim e fecha sua consideração declarando “Deus não rejeitou ao seu povo que antes conheceu”.

Mas por quê da pegunta? “Acaso rejeitou Deus a seu povo?”. E por quê da resposta tríplice?

– Uma primeira resposta negativa: “… não rejeitou ao seu povo…”;

– Uma segunda resposta, fazendo a justaposição dos termos “Deus” e “seu povo”, obviamente jamais o Eterno rejeitaria seu povo que de antemão o conheceu;

– Uma terceira resposta a promessa de Deus a Israel, ele não rejeitou o seu povo, como podemos ler na promessa da Antiga Aliança, Salmo 94.14: “Pois o SENHOR não rejeitará o seu povo, nem desamparará a sua herança” e 1º Samuel 12.22: “Pois o SENHOR, por causa do seu grande nome não desamparará o seu povo; porque aprouve ao SENHOR fazer-vos o seu povo”.

Portanto a declaração de Paulo é de enorme aversão: “…De modo nenhum…”, podemos parafraseá-la como “Não aconteça sob hipóstede alguma”, “Deus proíba” ou “longe de nós tal possibilidade ou pensamento”.

A averção a ideia de rejeição do povo judeu é tão forte, pois não se pode admitir que a vontade e o plano divino pudesse mudar de tal modo que aqueles que antes haviam sido povo de Deus, agora pudessem vir a ser final e totalmente rejeitados por Deus.

Isso é totalmente impossível, por isso o apóstolo Paulo evoca sua etnicidade judaica, dizendo ser filho de benjamim, e em seguida explica que ele não era o único judeu cristão, mas havia um remanscente fiel em Israel, como nos dias do Profeta Elias, quando o Eterno conservou sete mil homens para si.

Finalmente Paulo declara que depois da entrada do número completo dos gentios, Deus salvará todo o Israel.

Naturalmente certos cristãos estavam partindo de uma ideia bastante atraente, a substituição, ou seja, a Igreja Cristã substituiria ou sucederia a nação de Israel aqui na terra, e precipitadamente concluiria, o povo de Israel foi rejeitado por Deus, ou substituído por Deus.

Várias passagens da Bíblia aponta para essa possilibilidade, e é exatamente o que fez o Dr. Kenneth Gentry, teólogo aliancista e preterista: “O Israel do Antigo Testamento é o precursor e está em continuidade com a fase do Novo Pacto, que é fruição de Israel” e “Cremos que a igreja internacional sucedeu, para sempre, o Israel nacional como a instituição para a administração da bênção divina ao mundo”.[1]

Compreendemos a tese ou doutrina do Dr. Kenneth Gentry e muitos outros cristãos na atualidade, que é a crença ou doutrina da Substituição do Israel Nacional pela Igreja Cristã, mas não concordamos com tal doutrina, porque embora pareça ser bem construída é reprovada pela teologia paulina e pela escatologia bíblica, e é sem dúvida uma das sementes do antissemitismo, afinal daí se desenvolverá o mito do judeu errante, do povo rejeitado, do povo marginalizado.

Como dispensacionalistas, nós membros da Assembleia de Deus, cremos que a Igreja sucedeu Israel durante a presente era da Igreja na perspectiva espíritual, Igreja não é uma entidade etnica nacional, ela está acima do ethos, ela é formada das mais diferentes etnias, que compõem espiritualmente o Corpo de Cristo, diferentemente do povo de Israel, analogicamente pode ser chamada de Israel Espiritual, não como aquele que substitui a nação de Israel, mas aquela que é o Corpo de Cristo, portanto aquela que ministra as bênçãos do Senhor nesta época da graça.

Deus, entretanto, tem uma época futura em que Ele restaurará o Israel nacional “como a instituição para a administração da bênção divina ao mundo”: “Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja terminado. E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o libertador, e desviará de Jacó as iniquidades” (Rm 11.25-26).

A Igreja de Cristo nesta perpectiva espiritual é o povo de Deus, o sacerdócio real, composta de judeus e gentios, mas não é o povo de Israel, como também não é o povo gentio. Temos portanto na face da terra três povos: “Portai-vos de modo que não deis escândalo, nem aos judeus, nem aos gregos, nem a igreja de Deus” (1 Co 10.32).

Portanto “Israel sempre significa Israel” e o fato de Israel e a Igreja serem povos de Deus distintos não são apenas crenças teológicas. Essas coisas são especificamente ensinadas na Bíblia.

Atualmente, vivemos na época da Igreja, que se encerrará com o Arrebatamento – que pode ocorrer a qualquer momento –, quando a última pessoa for salva e incluída no corpo de Cristo. Então, a história completará a semana final da profecia sobre as setenta semanas de Daniel, que terminará com a conversão de Israel a Jesus como seu Messias: “E sobre a Casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão para mim, a quem traspasaram; e o prantearão como quem pranteia por um unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogênito” (Zc 12.10), “E, naquele dia, estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras, que está defornte de Jerusalém para o oriente pelo meio, para o oriente e para o ocidente, e haverá um vale muito grande, e metade do monte se apartará para o norte, e a outra metade dele, para o sul. E fugireis pelo vale dos meus montes (porque o vale dos montes chegará até Azel) e fugireis assim como fugistes do terremoto nos dias de Uzias, rei de Judá; então, virá o SEnhor, meu Deus, e todos os santos contigo, ó SEnhor” (Zc 14.4-5). Isso conduzirá ao reinado de mil anos, no qual Israel será o cabeça sobre todas as nações. A Bíblia distingue entre o plano de Deus para Israel e Seu plano para a Igreja.

Lamentavelmente a crença ou doutrina da Substituição do Israel Nacional pela Igreja Cristã, está presente deste a patrística, num imaginário ideológico perigoso dos cristãos, ao ver a cidade de Jerusalém destruída no ano 70 d. C., a revolt de Bar Cohva e o triunfo do Cristianismo, cria-se o mito da substituição, já que a prova definitiva era essa a destruição do Templo de Jerusalém, portanto, pricipitadamente, se conclui a rejeição da nação dos judeus por Deus.

Orígenes (185-253) observou que a aflição dos judeus após a destruição do Templo e da cidade de Jerusalém, constituia mais uma prova da veracidade dos Evangelhos, segundo ele, desde que os judeus rejeitaram a Jesus: “foram aniquiladas todas as instituições das quais tanto se orgulhavam, ou seja, as que se relacionavam com o Templo e o Altar dos Sacrifícios, os ritos e as vestes dos sumos sacerdotes” (Orígenes, Primeiros PrincípioS 4:1:3).

A relação igreja e judeus sempre foi conflituosa, de perseguida a igreja passou a ser perseguidora. A situação dos judeus só se deteriorava em relação ao governo romano, desde a revolta de Bar Cohva até os sucessores de Constantino, eles criaram uma nova legislação, segundo a qual os judeus não podiam casar-se com cristãos e tampouco possuir escravos – assim ficaram isolados e não teriam condições de desenvolver uma indústria. Em 351, eclodiram revoltas nas cidades judaicas da Palestina, e os romanos as reprimiram com grande violência. Em 353, Constâncio II promulgou novas leis, proibindo os cristãos de converterem-se ao judaísmo e acrescentando aos estatutos oficiais do Império uma descrição dos judeus como “selvagens”, “abomináveis” e “blasfemos”.

Lamentavelmente a idéia da substituição, leva o homem carnal a repulsa aos judeus, bem como o Estado de Israel, e essa ideologia germinou desde os pais da igreja até hoje. Documentados estão a declaração de muitos deles a respeito do povo judeu, econtramos em seus escritos desprezo e arrogância além da fé cega em atribuir a igreja como o novo Israel, desconsiderando o contexto bíblico e escatológico das Sagradas Escrituras, caíram no mesmo orgulho da nação de Israel, no mesmo erro, profeticamente exortado por Paulo: “E se alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo zambujeito, foste enxertado em lugar deles e feito participante da raiz e da seiva da oliveira, não te glories contra os ramos: e, se contra eles te gloriares, não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti. Dirás, pois: Os ramos foram quebrados, para que eu fosse exertado. Esta bem! Pela sua incredulidade foram quebrados, e tu está em pé pela fé, então, não te ensoberbeças teme. Porque se Deus não poupou os ramos naturais, teme que te não poupe a tu também” (Rm 11.17-21).

Somente quando a Igreja insiste em não compreender essa mensagem, quando crê secretamente – talvez de maneira totalmente inconsciente! – que a sua própria existência se baseia em realizações humanas, deixando de entender a misericórdia de Deus para consigo mesma, é que ela se torna incapaz de acreditar na misericórdia de Deus para com o Israel ainda descrente. Desse modo, ela alimenta a idéia má e contrária às Escrituras de que Deus rejeitou o Seu povo Israel e simplesmente o substituiu pela Igreja cristã. Esses três capítulos [Rm 9-11] enfaticamente proíbem-nos de falar da Igreja como tendo tomado, de uma vez por todas, o lugar do povo judeu.

Portanto, somos povo de Deus segundo a adoção e graça do Senhor Jesus Cristo, mas não no sentido étnico, mas espiritualmente, como Corpo do Senhor Jesus, o Messias: “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades. E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto; Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito. Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus;” (Ef 2.11-19), somos filhos de Deus (Jo 1.12, 1 Jo 3.2; Fl 2.15; Rm 8.14), somos Igreja, somos povo de Deus, ou seja, o corpo místico de Cristo.

Vivemos hoje num momento em que ideologias políticas, econômicas e religiosas, uma poderosa cosmovisão de mundo, tenta impor uma das maiores heresias a igreja cristã, a doutrina da substituição:

Quem é o povo de Deus no contexto do nosso texto áureo? É o povo de Israel, povo escolhido por Deus: “Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra… e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação… abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 12.1-3). “O Senhor teu Deus te escolheu, para que fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra” (Deuteronômio 7.6).

Há cinco elementos distintos na aliança que Deus fez com Abraão, Isaque, e Jacó (Israel) que distinguem seus descendentes de todos os outros povos da terra. Aqui eles estão na ordem em que foram dados:

1) a promessa de que o Messias viria ao mundo por Israel;

2) a promessa de um certo território que foi dado a Israel como possessão para sempre;

3) a lei mosaica e seus subseqüentes pactos de promessa, que definiram um relacionamento especial entre Deus e Israel;

4) a manifestação visível da presença de Deus entre eles; e

5) o reinado prometido do Messias, no trono de Davi em Jerusalém, sobre Seu povo escolhido e sobre o mundo inteiro.

“Escolhido” por um Deus “imparcial”?

Até mesmo entre crentes há uma controvérsia crescente sobre a questão de Israel ainda ter ou não um lugar especial nos planos de Deus. Essa polêmica é acompanhada pela rejeição crescente do ensinamento bíblico de que o território de Israel pertence aos judeus. Alguns argumentam que o fato de Deus ter escolhido Israel significa que Ele estava demonstrando um favoritismo injusto. Afinal de contas, a Bíblia diz que “Deus não faz acepção de pessoas” (Atos 10.34).

Tal imparcialidade da parte de Deus não foi revelada facilmente a Pedro, porque os judeus (e os crentes primitivos eram todos judeus) consideravam que não havia qualquer esperança para os gentios sob a lei de Moisés. Foram precisos sinais miraculosos para convencer a Pedro de que o evangelho não era apenas para os judeus, mas para os gentios também. Até mesmo muitos crentes hoje em dia não conseguem acreditar que Deus ame todas as pessoas igualmente e deseje que todos sejam salvos, apesar da Bíblia ensinar isso claramente: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira… o qual deseja que todos os homens sejam salvos… o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo” (João 3.16; 1 Timóteo 2.4; 1 João 4.14, etc.).

Como pode a imparcialidade de Deus ser reconciliada com a ideia de um povo escolhido? Deus deixou muito claro em várias ocasiões que não foi “acepção de pessoas” que O levou a escolher Israel. Ele os escolheu apesar de sua falta de mérito e atração, não porque Ele achou que fossem mais atraentes que outros povos. Na verdade, eles eram rebeldes e nada mereciam além de punição. Foi com esse povo indigno que Ele decidiu demonstrar Seu amor, graça, e misericórdia ao mundo.

Ouça enquanto Ele fala a Israel através de Seus profetas: “Não vos teve o Senhor afeição, nem vos escolheu, porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o Senhor vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais (Abraão, Isaque e Jacó), o Senhor vos tirou (do Egito)” (Deuteronômio 7.7,8).”Porque povo rebelde é este, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do Senhor. Eles dizem… aos profetas: Não profetizeis para nós o que é reto; dizei-nos cousas aprazíveis, profetizai-nos ilusões” (Isaías 30.9,10). “Filho do homem, eu te envio aos filhos de Israel, às nações rebeldes que se insurgiram contra mim; eles e seus pais prevaricaram contra mim, até precisamente ao dia de hoje” (Ezequiel 2.3).

Yahweh não viola Suas promessas. Se Ele deixasse de manter Sua Palavra, fosse de trazer bênção ou julgamento, Seu caráter seria manchado e Seu santo nome desonrado. Como Ele disse freqüentemente por meio de Seus profetas a respeito de Sua intenção de trazer Israel de volta à sua terra nos últimos dias: “Não é por amor de vós que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome” (Ezequiel 36.22). “Tu és o meu servo, és Israel por quem hei de ser glorificado” (Isaías 49.3).

Portanto o nosso texto áureo foi primariamente direcionado ao povo de Israel, porém com o advento do Senhor Jesus, nós que não éramos povo, tornamo-nos pelos méritos do Senhor Jesus no Calvário: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” (1 Pedro 2.9-10).

Porém é importante compreendermos que não existe exemplo algum na literatura bíblica do emprego do termo Israel no sentido de Igreja, ou do povo de Deus composto de cristãos de etnia judaica e cristãos gentios. Por outro lado, também não existem, como se poderia esperar se o contrário fosse verdadeiro, exemplos do emprego da expressão “ta ethnê” (“os gentios”) para referir-se especificamente ao mundo não-cristão. Essa expressão é usada apenas para referir-se aos povos não-judeus, embora esses geralmente sejam não-cristãos.

Podemos resumir assim a distinção entre Israel e a Igreja com algumas evidências:

A primeira evidência é o fato de que a Igreja nasceu no dia de Pentecostes, enquanto Israel já existia por muitos séculos…

A segunda evidência é que certos eventos no ministério do Messias foram essenciais para o estabelecimento da Igreja – a Igreja não veio à existência até que certos eventos tivessem ocorrido…

A terceira evidência é o caráter de mistério da Igreja…

A quarta evidência de que a Igreja se distingue de Israel é o relacionamento singular entre judeus e gentios, chamados de “novo homem” em Efésios 2.15…

A quinta evidência para a distinção entre Israel e a Igreja é encontrada em Gálatas 6.16: “E, a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus”.

Talvez mais uma observação possa ser feita. No livro de Atos, tanto Israel como a Igreja existem simultaneamente. O termo Israel é usado vinte vezes, e o termo “ekklesia” (Igreja), dezenove vezes. No entanto, os dois grupos são sempre tratados de forma distinta.

IGREJA DE CRISTO TAMBÉM É O POVO DE DEUS

 

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